Estamos no Brasil a 24h de um novo ano pelo calendário gregoriano, iniciaremos 2005 com um histórico não muito bom de 2004, um ano fadado a desilusão política, aumento da violência e grandes catástrofes onde a natureza tentou nos mostrar que não somos mais fortes que ela.
O ano que aqui acaba deixa um resumo cruel do que o homem esta fazendo do mundo, do outro homem, dos animais, de seus valores e deixa mais, o medo que de tudo isso continue no ano que inicia daqui a algumas horas.
Que continuemos a tratar o mundo como um serviçal mal treinado, que pisemos no outro de nós para sermos fortes, que mutilemos os animais para suprir nossas necessidades afetivas e o pior que por aventuras banais joguemos tudo de ética e conceito que aprendemos durante a vida no lixo... Esse é o último suspiro que 2004 nos traz e como um morimbundo à beira da morte, do abismo, da passagem, eu queria pedir a cada um de vocês que se coloque nesta posição e veja repassar diante de seus olhos o filme de suas vidas, todas os momentos bons e ruins que dizem os que já foram e voltaram ou só foram que passam como um trailer diante de nossos olhos no momento em que desencarnamos.
E ao rever estes momentos da sua vida o faça com cuidado, tente pensar desde a primeira boneca, a primeira bola, passando pela primeira escola, o primeiro choro sentido sozinho no quarto, até o primeiro beijo, o primeiro olhar, a cumplicidade que vai morrer com você, mesmo que não veja a pessoa pelos próximos 10 anos.
Os fatos que intercalam a tua história, também estão presentes em muitas outras histórias que você jamais imaginou pertencer... É aquele momento que você não dividiu o lanche na escola e fez o menino se sentir mais sozinho, ou aquela boneca que você trocou na escola por um patinho de borracha e fez uma menina sorrir por dias. São aqueles momentos que de coadjuvante: você assumiu o papel principal, o papel da tua história dentro da vida de outra pessoa, seja passando cola na escola, seja roubando um beijo no vestiário do ginásio ou ainda olhando a menina linda passar na rua e pensar: ela vai casar comigo. E ela ao passar brinca: "ai que nenê lindo..." E você passa os próximos 5 anos "odiando" meninas bobas.
E a vida seguiu, sem que você se desse conta veio a primeira dor de cotovelo, vestibular, faculdade e aí não dava mais tempo de conversar com seu amigo imaginário que morava dentro do armário, nem de criar uma história fantástica com todas as pessoas que já tinham passado por você...Eram muitos.Você acabaria esquecendo de algumas. Neste momento sua vida tomou um rumo, você decidiu e foi em frente, não olhou pra trás, não analisou um retorno que havia na estrada... Apenas foi. Confiante e crédulo. E no momento seguinte suas crenças se perderam como o ano de 2004 que trouxe ao ser humano uma amostra de poder que a natureza possui e que nós, pobres humanos, julgamos conhecer e dominar.
E neste tempo você aprendeu um novo idioma, emagreceu, engordou, pintou o cabelo, ganhou um bixinhu de estimação, quis pintar as paredes de azul, vermelho e grená... Perdeu um amigo pra violência das ruas, do trânsito. Se apaixonou e acreditou que era pra sempre (algumas vezes), mudou de emprego, foi mudado... E os detalhes você deixou num canto, junto com o amigo, com as histórias, as vontades de ser grande e íntegro... O mundo corrompeu até aquilo que você jurava não ter preço. Sua lealdade aos seus sentimentos.
Por isso hoje, de uma maneira bem tranquila, eu peço que você respire fundo... Feche os olhos e escolha uma pessoa como símbolo pra você trazer de volta algo de bom que este filme meio flash back, meio filme de terror te trouxe à tona... Se ela vai te fazer sorrir, chorar, se ela ainda vive ou já morreu, se é um estranho na rua, ou um caozinho vira lata, não importa.
Importa que 2005 precisa ser mais humano, mais coerente e mais leal que o ano que esta acabando... Você precisa acreditar que ter ética e princípios vale mais que tudo isso que você já experimentou. E mais, que você vai deitar tua cabeça no travesseiro todos os dias do ano Bom que chega. Com um sorriso nos lábios e a sensação que o mundo ainda é um lugar que vale a pena. Porque existe você. E você pode mudá-lo para melhor!
Ligia Mello